BI – Bilhete de Identidade

As pessoas em geral gostam de saber alguma coisa sobre quem está a emitir opinião, e entendo que esse facto é absolutamente natural: eu própria sou utilizadora desse “manual de instruções” e gosto de ter conhecimento de quem é afinal, o emissor(a) de um qualquer comentário, demais a mais, tratando-se de política nacional ou internacional.

Portanto fica por aqui o meu Bilhete de Identidade – nos tempos que correm ando às avessas com o Cartão de Cidadão e com a AMA, que agora é ARTE – pelo que BI vai ter de servir.

Começar por dizer que a minha vida dava um livro (autobiográfico) ou um filme, seria desde já, demasiada presunção da minha parte. Nem pensar, porque não é verdade.

Porém, espero que venham a entender o(s) motivo(s) pelo(s) quais eu não posso olhar e ver o mundo e o país, Portugal, com os olhos da maioria das pessoas da minha idade, nomeadamente mulheres da minha faixa etária, porque eu não tive e não tenho uma vidinha semelhante à maioria das minhas concidadãs portuguesas.

O meu nome é Isabel Alhandra. Tenho 63 anos e tenho emprego. Sou filha única, divorciada e nunca tive filhos (com grande mágoa minha). Não porque não os pudesse ter, mas devido facto por um lado, de o meu casamento ter durado pouco tempo e por outro, de ter sido sempre muito tradicionalista. A possibilidade de adopção, que tentei em devido tempo, há muitos anos atrás, não se veio a concretizar, e eu fiquei-me por aí no que a crianças diz respeito.

Nunca me dediquei publicamente à política, nunca me filiei num partido, até ao passado dia 6 de junho de 2026. Gosto de política desde os meus 13 anos de idade (1976). A partir dessa altura até meados dos meus 20, li tudo o que conseguia apanhar para ler à época ou o que me indicavam como boa leitura, levando-me a calcorrear Lisboa, à procura da biblioteca que tivesse a obra e onde me pudesse sentar tranquilamente a ler.

Em casa do meu pai, a política ficava à porta, sem entrar. A política da minha casa de família era o trabalho, o estudo e a economia de recursos. Nada mais.

Aos 17 anos transmiti aos meus pais, durante um jantar, que tinha intenções de entrar para a JSD. A reação que recebi foi: “Livra-te de fazer isso enquanto estiveres debaixo do meu teto. Não entras para coisa nenhuma, não tens a minha autorizção, e se eu sei que o fizeste à revelia, ponho-te no olho da rua. Depois orienta a tua vida com a tua política. Era só o que me faltava depois de um pai, ter uma filha na política. Nem penses, nem ouses e eu estou a falar muito a sério. E não metas a tua mãe no meio, porque então, em vez de sair uma, saiem logo duas.” Ao que eu retorqui: Não posso agora, mas penso que é o que eu farei quando fizer 18 anos. Resposta: “A ver vamos. Se queres estragar a tua vida, o problema é teu, mas vais estragá-la sózinha. Não perto de mim, nem da tua mãe. Agora a conversa terminou. Quero acabar o jantar em sossego”.

Não foi propriamente uma surpresa tal reação, foi só uma explosão bastante mais forte do que eu esperava. A minha mãe ficou petrificada, coitada. Depois muito aflita: um marido senhor do seu nariz e uma filha obstinada, realmente ficar no meio, não era grande vida, nem para ela, nem para ninguém.

É certo que nunca entrei para aquilo a que me tinha inicialmente proposto. Mas fiz campanha à escondidas pela AD de Francisco de Sá Carneiro. Não pude estar presente fisicamente na Alameda, segui pela televisão. Foi bonito de se ver.

Tudo se transformou em mim, a esse nível, após 4 de dezembro de 1980. Os Bons, os Grandes neste país – vou dizer assim para ficar bem na fotografia – ou morrem, ou vão para o exílio ou acabam na prisão. São sempre eles os únicos culpados de alguma coisa. Como se alguém fizesse na vida tudo sózinho. Penso que somos pequeninos demais para cuidar e entender os nossos Grandes. Até hoje não mudou, muito pelo contrário.

Apesar de ser muito nova aquando do 25 de abril de 1974, mas como li muito sobre o assunto, tenho para mim, que o que aconteceu ao Sr. Professor Marcelo Caetano foi uma tremenda de uma injustiça.

Volvidos cerca de 52 anos após o 25 de abril, continuamos a viver numa democracia, ou nos últimos tempos numa pressuposta democracia: Crescemos?

Estamos bem, como país?

Como está a nossa identidade como nação antiga que somos na Europa?

O que pensam os Portugueses, nascidos em território nacional e que não compraram vistos Gold, dos serviços públicos?

Do seu poder de compra?

Da sua vida em geral, como descendentes do Dom Afonso Henriques?

O 25 de abril teve muitos pontos positivos e aconteceu porque tinha de acontecer, não porque os Portugueses o quisessem – claro que muitos queriam e sofreram bem na pele a perseguição da PIDE DGS.

Quanto a mim, a colonização portuguesa no Ultramar tinha de acabar.

Esse foi o motivo do 25 de abril, não que alguém estivesse deveras preocupado com a liberdade do “povo” português, dos viviam pacatamente e em silêncio num território pequeno, à beira mar plantado chamado Portugal. Assim o exigia o andar dos tempos. Outros interesses mais fortes se impunham. Ponto. O resto são lindos cravos vermelhos e meras quimeras.

O Estado Novo e a Ditatura em Portugal proporcionou uma vivência muita má, terrível para quem preservava a liberdade de expressão. Muito do que sucedeu após a Implantação da Republica ao nível, por exemplo, da educação e dos direitos das mulheres regrediu e perdeu-se com a chegada do Estado Novo. Ao longo dos tempos, muito tenho ouvido falar e comentar sobre Salazar e o regime Salazarista. E sobre a descolonização. E sobre os Combatentes no Ultramar.

O que me surpreende e muito, é porque nunca ninguém se atreve a falar da PIDE DGS e das atrocidades cometidas pela polícia secreta portuguesa, tantas vezes quanto falam de Salazar e da ditadura e do resto. Os que foram vítimas da polícia secreta portuguesa, dos que morreram pelo que defendiam (algumas das mortes foram sempre acidentais, eu sei), nada está bem documentado, pois sim.

Pergunta: E alguém procurou devidamente, com minúcia e empenho? Alguém se interessou em saber o que sofreram as famílias de todos aqueles que ousaram desafiar a Ditatura instalada e que residiam em território nacional, naquela época, por conta da defesa da liberdade de uma nação?

Sim, sim, esses não foram Retornados, esses não tiveram de sair à pressa e de má vontade de um país que, por mero acaso, não era o deles por causa da má/boa Descolonização, a qual de quando em quando vem à baila na comunicação social.

Eu continuo a questionar: Porque será caramba, que os que lutaram pela liberdade de inúmeras formas, em plena ditadura não são falados, os nomes não são divulgados, ou pelo menos os de alguns? Não me refiro aos do Partido Comunista, esses foram divulgados e falados na altura própria. Não conheci, nem conheço nenhuma campanha de indemnização a essas famílias vítimas de perseguição, porque de acordo com a filosofia da ditadura: “onde há um, há alta probabilidade de contágio e acabarem por ser muitos”. E os que rumavam contra a maré, será que eles eram todos uma cambada de comunistas, aqueles vermelhos do Dr. Álvaro Cunhal? A sério? Qual o motivo para tanto silêncio? Não sei. Sei sim seguramente que muitos e muitos dos que se ergueram contra a ditadura e o fascismo, não eram realmente comunistas, foram só rotulados como tal, nem sabiam devidamente o que era o comunismo.

Entre esses, acredito que estivesse o meu avô paterno. Mas a questão ficará para uma outra publicação, porque o ChatGPT diz-me que devo dirigir-me à Torre do Tombo – o local certo – e eu tenho de passar por lá.

A ditadura acabou mas consta-se que os cofres do país Portugal estavam cheios.

Em 2026, 52 anos depois estarão os cofres ainda cheios?

Se não estão, isso também deve ser culpa do Salazar, porque mesmo depois de morto o Salazar teve e tem culpa de tudo. Ah, pois é, só pode, é mesmo a minha brilhante e ousada conclusão.

Não fui, não sou, nem jamais serei defensora de ditaduras, quer de esquerda, quer de direita. Mas gosto muito pouco de regabofes.

Se uma democracia não dá frutos para os seus, arranje-se outra versão, seja ela qual for. Não importa, um regime alternativo.

Uma democracia em que aparentemente (digo-o sem certezas, nem bases sólidas para qualquer argumentação) premeia-se os vigaristas, os que contornam o sistema e exige-se demais e cada vez mais a quem trabalha por um ordenado minímo irrisório ( até parece que alguns têm saudades as ex-colónias e querem passar para aqui, para Portugal e Ilhas o que acabou do lado de lá, em África, há anos).

Por mim eu falo: eu sou branca, europeia, não sou preta e mesmo que preta fosse, há situações que não podem e não devem voltar a ocorrer nem em Portugal e nem com os Portugueses que nasceram aqui, aqui mesmo, em Portugal.

No dia 6 de junho de 2026 tornei-me pela primeira vez na minha vida, militante de um partido político português. Nunca pensei ser militante do partido que sou. E aderi a um partido político, porque estou farta, tão mas tão farta de disparates e de diálogos sem sentido. Em consciência, não poderia ficar quieta.

Voltei as costas aos partidos do arco da governação em Portugal. Sou militante do CHEGA.

Notem bem: Não sou populista, longe de mim. Os que andam por aí na Comunicação Social deveriam porventura estudar afincadamente para arranjar uma outra palavra, porque essa tendencialmente já não surte o efeito pretendido, já não “cola”. E digo isto num gesto aberto de diálogo, como se quer numa democracia.

Quanto ao CHEGA, sou recém chegada, não conheço a maioria das pessoas, mas venha quem vier e seja o que for, se o CHEGA não servir, parte-se para uma outra coisa qualquer.

É que eu sou ainda daquelas que gosto de dizer, onde quer que me encontre e orgulhosamente, que sou Portuguesa de Lisboa, Alfacinha de gema. Não quero ter vergonha do sítio onde nasci, agora que estou quase a entrar na 3ª idade. Era só mesmo o que me faltava.

É sexta-feira. É Verão! Bom fim de semana para todos.

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